Então iria ser assim: ela entraria na livraria, compraria o dvd e voltaria o mais rápido possível. O dia tinha sido cansativo. E ainda sobravam algumas horas a serem aproveitadas fora de casa.
No início, ela relutou. Não queria aceitar o dinheiro que acabara de cair do céu, assim, de repente, pegando-a de surpresa. Sabia que por detrás daquela "oferenda" haveria cobrança e "passação na cara". Mas oras, que se dane! Isso acontece o tempo todo mesmo, pensou. Era por uma ótima causa. Ela desejava que aquele filme fizesse parte de sua coleção há muito tempo. Já estava mais do que na hora.
Foi-se. De braços dados com a irmã, pipoca doce murcha em mãos e a nota. Procuraram, ambas, em todos os locais indicados. Nas prateleiras habituais. Nada. Nos balcões. Nada. Na sessão de seriados. Muito menos. O telefone toca. Queriam saber o motivo de tanta demora. Explica-se. A ligação cai.
Sentindo o estômago pesado devido os excessos do almoço comemorativo (como se isso fosse desculpa, a "comemoração"), sobe a escada que leva ao andar de cima. Ali sim. Não era possível que não estivesse ali! Reiniciam a busca. Comédia. Hummm, não. Terror. Não. Ficção, Clássicos, Cinema Europeu, Novidades, Documentários... Cinema Brasileiro. Não, não, não, NÃO. O celulares vibram. Disseram que está na parte térrea, perto das revistas. E olha que ela nem sabia que essa "parte das revistas" existia. Achou estranho. Ficou parada, olhando para a cara estarrecida da irmã que, impaciente, insistia, em vão, que recorressem à algum atendente. Nossa, que delícia esse leite condensando concentrado no fundo do saquinho... adoro essa música que tá tocando agora... ei! Despertada de seu transe, abruptamente, por meio de sacolejadas nos ombros, ela dirige-se até o balcão de informações, à caça de alguém que as auxiliasse na complicada tarefa de encontrar o escorregadio objeto. Espera algum tempo. Todos ocupados. A recepcionista chama alguém pelo interfone e antes que a mesma pudesse dar-lhe alguma resposta, ela sorri irritada e se vira.
E o vê. Vindo em sua direção. Alto. Nem gordo, nem magro. Pele morena. Nem tão escura, nem tão clara. Uma cor meio de jambo, sabe. Cabelos lisos, castanhos. Os olhos esverdeados encobertos por uns óculos legais. Uma barbicha rala brotando do queixo. E um sorriso. Logo ela, que tinha mania de se perder, também, nos sorrisos. E aquele sorriso cordial, sinalizando um posso ajudar?, pareceu tão perfeito naquele momento, que ela ficou sem ar por um instante. Quase esquecendo do que deveria perguntar. Permaneceu daquela maneira, contemplativa, enxergando luzes de neon, ouvindo o que proferia em câmera lenta. Er... vooooooooooooocê saaaaaaabe dizeeeer se (que fofo ele!) se teeeeeem um filmeeeeeee chamaaadoo PulpFiction? (aqui ela procurou falar mais rápido, sabem os deuses porquê). Ele sorri novamente, vai até o computador, faz uma busca. Sim, temos sim. Ela olha para a irmã, que percebe seu encantamento. Perguntam o preço. Muito mais caro do que poderiam pagar. Maaaaas eu sooooube que tem (o que dizer?) umaversãomaisbarataàvendaaqui... Ele olha para ela, sorri aquele sorriso de novo e responde que não, que ela estava enganada. E sugere um outro filme para compensar a aparente frustração, falando meio assim, como se ela não entendesse dessas coisas, ué. Ela agradece com um movimento sensual de cabeça (pelo menos ela tenta) e sai dali acanhada, lentamente, entorpecida.
Ééééé! Eu vi você viu? Toda "assim" pro lado do atendente!
Eu não.
Uma graça ele... só não é mais bonito que o meu "cara Superbad"...
Heim?
Aquele! Da sessão de cd's...
Ah! hahaha.. é mesmo! Se parece! Mas esse moreno é mais gatenho...
Ele faz mais teu tipo. Mas eu vi primeiro... (mulher tem dessas coisas, essa sede por patentear)
Que viu que nada!
Vi sim! Ele tava sentado...
Num banquinho lá perto da escadaria do shopping. Eu sei, eu vi também. Toma pra tu.
Tava almoçando...
Então. Mas eu já tinha visto ele antes disso. Na verdade, eu sempre vi. Desde as primeiras vezes que a gente veio aqui. Papai até bateu um papo com ele uma vez. Perguntando sobre como que se fazia pra trabalhar aqui e tal...
Menina! Quando foi isso?
Ah, naquele dia que eu mostrei "Vigiar e Punir" pra papai.
Sua danadinha... (olha aí a importância do ver primeiro)
É... eu até fiquei me sentindo meio safada na hora, por estar olhando com milésimas intenções.
Porque?
Porque eu era uma moça comprometida, oras!
Eita! E tu ia deixar de olhar por causa disso, é?
Deveria... não?
E deixasse de olhar?
Tu acha? hahahaha
Decidem separar-se. Dar uma última olhadela. Quem sabe? Ela termina de comer seu petisco e joga a embalagem no lixo. Percorre com os olhos cada cantinho da loja. Encontra livros que gostaria de comprar. Outros que só de graça e olhe lá. Desistem. Vai ver o moreno tinha mesmo razão. Enquanto encaminham-se até a porta de saída, mais um telefonema. Dessa vez a informação que vem do outro lado é clara e certeira. É no fundo da livraria, meninas! Ok. Fundo da livraria. Aí que, de repente, ela perde o chão.
O dinheiro!
Que tem o dinheiro?
TAVA JUNTO COM O SACO DA PIPOCA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
E cadê?
EU JOGUEI NO LIXO, POOOOOORRA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Fudeu! Agora fudeu!
FUDEU TUDO! QUE É QUE EU VOU DIZER??????????????????????????????????????????
Tu num lembra em que lixeira jogasse não?
não...
E ela fica ali. Atordoada. Rindo à toa. Desesperada. Louca. Até que a irmã (benditos sejam os frutos da vossa esperteza!) encontra a cédula, dobradinha, intacta. Alívio geral. Risos. Compram o dvd e saem da livraria. Renascidas. Ressarcidas. A irmã fazendo graça. All you need is love. Passam-se alguns minutos. Ela volta a ouvir música. Pensando na burrada que tinha feito. Mas sentido-se bem. Sentindo-se mulher. Pela paquera. Pelo sorriso. Pelos 20 reais quase perdidos.
Homem nenhum vale 20 reais jogados fora! Se ao menos fosse compartilhado, né não?
Claro.
Pipoca doce com leite condensado é muito bom!
ResponderExcluirMas esse cara era muito cute po!!!!!!!!!!