E eis que ao término de uma extensa leitura fica àquela sensação de vazio. Saudade dos novos conhecidos, dos que se tornaram melhores amigos. Do ficar imaginando como haverá de ser. E quando o fim se aproxima, você devora as frases com uma voracidade que só a curiosidade é capaz de instigar.
Demorei quase dois meses completos. Foi há umas três semanas atrás que dei meu adeus à Antares, ao coreto e aos mortos. Ainda sinto falta deles. Dos vivos que não morreram e dos defuntos que sobreviveram.
Afinal, foram 485 páginas. Uma relação dessa proporção não se esquece facilmente. Nem assim o desejo. Não vou aqui fazer crítica, resenha, nem nada do tipo. O carinho e admiração que sinto pelo ser humano João Paz, pelo idealismo do Padre Pedro Paulo, pela vivacidade de Valentina, pela ingenuidade de Erotildes e a lealdade de Rosinha, seriam difíceis de descrever. E foram tantas as lágrimas derramadas diante da fatalidade que acometeu Menandro Olinda; foram tantas as gargalhadas que ressoaram na calada das minhas madrugadas, lendo em voz alta as reações ensandecidas dos que acreditaram piamente que o fim estava próximo; foram tantos os dilemas travados, as denúncias escancaradas, o passar do tempo que nunca pára. História e "ficção" ironicamente emaranhados.
Incidente em Antares foi o último livro escrito pelo romancista brasileiro Érico Veríssimo, em 1971. A primeira obra (dele) que li até a última página. Cheguei muito perto com Olhai os Lírios do Campo. Mas a correria da faculdade e as renovações expiradas da biblioteca impediram-me de completar essa missão. Fiquei com a saga do Povinho da Caveira. Sem trocadilhos.
"(...) Nasciam em Antares os boatos mais desencontrados. Ora, um boato é uma espécie de enjeitadinho que aparece à soleira duma porta, num canto do muro ou mesmo no meio duma rua ou duma calçada, ali abandonado não se sabe por quem; em suma, um recém-nascido de genitores ignorados. Um popular acha-o "engraçadinho" ou monstruoso, toma-o nos braços, nina-o, passa-o depois ao primeiro conhecido que encontra, o qual por sua vez entrega o inocente ao cuidado de outro ou outros e assim o bastardinho vai sendo amamentado de seio em seio ou, melhor, de imaginação em imaginação, e em poucos minutos cresce, fica adulto - tão substancial e dramático é o leite da fantasia popular - começa a caminhar pelas próprias pernas, a falar com a própria voz e, perdida a inocência, a pensar com a própria cabeça desvairada, e há um momento em que se transforma num gigante, maior que os mais altos edifícios da cidade, causando temores e às vezes até pânico entre a população apavorando até mesmo aquele que inadvertidamente o gerou".
(Verissimo, pág. 117-118, 1971)
E que venha a minissérie!
E que venha a minissérie!
Parece aquele sermão de Dúvida!
ResponderExcluirMuito foda!