quarta-feira, 6 de maio de 2009

"Feliz é a inocente vestal! Esquecendo o mundo e sendo por ele esquecida. Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Toda prece é ouvida, toda graça se alcança"

Alexander Pope

Eu não gostei. Da primeira vez que vi. Dormi em alguns trechos. Achei confuso e metido a "diferente". Pretenciosamete chato. Porém, ao findar do enredo, quatro coisas não saiam da minha cabeça: a cena do rio congelado, a linda trilha sonora, uma citação, e a palavra Tangerine.

Tangerine... Tangerine! Estou para conhecer alguém que não soletre, assim, quase que mecanicamente - e, na maioria das vezes, com uma boa dose de doçura nos lábios - as sílabas que formam o apelido de umas das personagens mais carismáticas dos últimos anos. "Tangerine!". Quase um mantra. Reconhecimento imediato. Demonstração espontânea e adorável de que sim, o quebra cabeças habilmente escrito pelo roteirista Charlie Kaufman causou impacto. Sim. A colcha de retalhos sensivelmente dirigida pelo francês Michel Gondry tem seu valor. Sim. Kate Winslet está fantástica, crível. Sim. Jim Carrey nunca mais atuará tão bem. Sim. Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças mexeu com você.

Foi amor à segunda vista. Terceira vista. Bem, tantas vistas já vistas que nem me recordo mais. Sim. Eu fui fisgada. Sou irremedialvelmente apaixonada por esse filme. Lembro como se fosse hoje. O nó desfeito ao fim da projeção. Aquela agonizante sensação de flagrante. Sim. Eles entendiam. Nós sabíamos. Agora éramos amigos de fato. Cúmplices de uma estória universalmente conhecida. Por aqueles que viveram amores. Grandes. Pequenos. Para a vida toda. Por ap
enas um dia. Platônicos. Reais. Por aqueles que já se apaixonaram como se fosse pela última vez, mesmo sendo a primeira. Como se fosse a primeira vez, mesmo sendo pela mesma pessoa.

Não sou muit
o afeita a fazer resumos de filmes. Mas esse é especial. Então aqui vamos nós. Joel (Jim Carrey) é, aparentemente, um cara pacato. Em uma manhã como dessas quaisquer, ele vai ao estacionamento do prédio em que mora e encontra a porta do seu velho carro um tanto quanto bem amassada. Ele não entende como aquilo pode ter acontecido. Não recorda-se de ter-se envolvido em acidente algum. Terá sido algum vizinho? Sem muitas delongas, dirige até a estação de trem, onde iria aguardar na plataforma, já atrasado e estranhamente ansioso, o transporte chegar. Num ato impulsivo, resolve mudar a rota de seu destino, faltar ao emprego e deixar que o dia lhe revele as boas(?) novas. E é por causa desse seu comportamento tão atípico (Joel nos conta sobre a sua aparente inaptidão em tomar decisões repentinas) que o moço tímido conhece Clementine, seu, aparentemente, total oposto. Desinibida, a bela estranha de cabelo azulado se apresenta ao nosso protagonista com uma naturalidade de dar inveja. Dessa maneira, apesar das aparentes diferenças, os dois decidem levar aquele encontro aparentemente casual adiante. Trocam ligeiras confidências, fazem um "piquenique" ao luar e, na volta para casa, Clem decide dormir no apartamento de Joel. Mas antes disso, precisa pegar sua escova de dentes em casa. Enquanto espera a moiçola, alguém bate à janela do automóvel de Joel e o pergunta de forma surpresa, o porquê de ele estar ali. Sem resposta, vai embora e deixa o cara com uma pulga atrás da orelha. Ao voltar, Clementine abre uma correspondência que foi enviada para ela, de uma tal empresa chamada Lacuna. Dentro do envelope uma fita de aúdio e um pequeno memorando. O conteúdo destes deixa os dois confusos. Tamanha é a estranheza de Joel que o mesmo exige que a protagonista desça do carro e vá embora para sempre.

E então: BUM! O quadro que se config
ura aos nossos olhos é a de um Joel às lágrimas, desesperado, tremendo, quase sem conseguir lidar com a direção do seu veículo. Dessa vez quem fica sem entender nada somos nós. O que acabara de acontecer não haveria de ser suficiente para causar tanta dor. Não. Não mesmo. Com o decorrer dos minutos precedentes, a estória se passa praticamente toda no cérebro de Joel , através de suas lembranças e o embate poético entre razão, emoção e o amor que permanece intacto, seja lá qual for o orgão que o abriga.

Durante sua epopeia (e daqueles que tentam atrapalhadamente apagar algumas de suas memórias), Joel recorda momentos que marcaram a relação turbulenta entre Tangerine e ele. Discussões aparentemente bobas que se transformam rapidamente em brigas homéricas; brincadeiras de casal, na intimidade de um quarto; estripulias dos que se gostam, no meio da multidão; o pavoroso silêncio que vez ou outra acomete os que entre si interagem; o silêncio cúmplice; palavras que nunca poderiam ter sido ditas; as que deveriam ter sido ditas. Mas sei lá, a gente acaba não dizendo.

"Começo, me
io e fim". Um conto aparentemente simples sobre dois seres humanos aparentemente simples, com vidas aparentemente simples, mas que, com certeza, nos conquistam exatamente por isso. Clementine é impulsiva, neurótica, instável. Joel é reservado, racional, passivo. Um muito de tudo aquilo que fomos, somos e seremos. Pois ninguém é totalmente Joel o tempo todo. Ninguém é Clementine o tempo todo. Nem eles o são. Mas uma coisa parece unânime: é que no fim das contas, o que fica mesmo, são os sorrisos entrecortados, os olhares carinhosos, desconfiados e cheios de segredos, e a dor que acompanha os que se permitem amar, uma, duas, três, infinitas vezes. Com todos os benefícios e malefícios que acompanham o produto. Sem troca. Sem devolução. Muito menos garantia.



Título Original: Eternal Sunshine of the Spotless Mind
Tempo de Duração: 108 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 2004
Site Oficial: www.eternalsunshine.com
Direção: Michel Gondry
Roteiro: Charlie Kaufman, baseado em estória de Charlie Kaufman, Michel Gondry e Pierre Bismuth
Produção: Anthony Bregman e Steve Golin
Música: Jon Brion

2 comentários:

  1. Adorei o post! Acabei de assistir o filme e ele me impressionou muito, tanto que vim em busca de informações sobre. Procurei pela citação de Pope e encontrei seu blog.. e gostei! Me apareceu algo sensível e inteligente do tipo que eu gosto.

    Virei sempre aqui! rs ;)
    Abs
    Elaine Rodrigues

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